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Comer em São Tomé e Príncipe

Outubro 20, 2014

De volta a Portugal, com muito para contar… estive um mês em missão de voluntariado pelo país de São Tomé e Príncipe, o que me levou a percorrer grande parte do território e conhecer bem a sua riquíssima fauna e flora… 

Com muito mar e uma terra que dá tudo o que se planta e o que não se planta também, São Tomé é o país do peixe e da fruta… comida simples, saudável, saborosa e colorida! 

Com o seu estilo “leve-leve” bem assumido, nunca esperem atendimento rápido, mas podem contar com comida fresca e bem servida! Muitos restaurantes funcionam em sistema de reserva para que a comida seja do dia e não haja desperdício, especialmente em Príncipe.

Das dezenas de árvores de fruto que se podem encontrar em São Tomé, cruzei-me com estas:
Bananeira

São sete espécies diferentes e não é difícil encontrar homens e mulheres pela estrada com as suas catanas na mão ou cachos na cabeça…


O consumo da banana em São Tomé pode-se comparar ao nosso consumo de batata… ela está presente em quase todas as refeições e pode ser consumida para acompanhar carne e peixe. Pode ser cozida, assada, frita em rodelas finas ou em tiras compridas e as espécies mais doces podem ainda estar presentes na sobremesa como fruto simples, frita ou em bolos.

Esta é a banana-maçã, assim chamada porque tem um aroma e ligeiro sabor a maçã. 
Banana seca ao sol

Cacaueiro

O cacau foi introduzido na ilha pelos portugueses no século XIX durante a época colonial e chegou a ser nesse tempo o maior produtor de cacau do mundo! Com o fim da colonização e a nacionalização das roças, a maioria das plantações foram abandonadas e a produção de cacau diminuiu drasticamente. Não é difícil encontrar cacaueiros “abandonados” pela estrada. Hoje em dia a única esperança está no cacau biológico!

Aqui uma antiga casa colonial de roça de cacau abandonada:

Rosema
O fruto nasce do próprio tronco e passa por diferentes fases de maturação…

É nesta fase amarelada que a polpa que envolve as sementes pode ser consumida. É agridoce e muito saborosa. 

Passa depois para o seu estado mais maduro e avermelhado. É nesta altura que é colhido, e lhe é retirada a polpa. As sementes são então escorridas e secas antes de serem transformadas em pó.

Encontrei um video do youtube para os mais curiosos que mostra bem a evolução da produção do cacau assim como o seu processamento: https://www.youtube.com/watch?v=a_iZorgO5rI 

Café

O café já era cultivado muito antes da introdução do cacau na ilha, mas as roças que o produziam tiveram o mesmo fim que as de cacau… estão na sua maioria abandonadas e neste momento apenas se investe na produção de café biológico. 


Roça Monte Café, onde está sediado o Museu do Café
 Caramboleira 
Mamão

 Coqueiro
Água de coco na Praia das Sete Ondas
 Fruta-pão

A fruta-pão é mais uma das bases fundamentais da alimentação são-tomense, com árvores espalhadas por todo o lado. Tem uma cor verde intensa e muito bonita, que chama a atenção! Comi-a assada e frita. Assada tem um sabor bem difícil de descrever e que não me agradou… quando frita fica deliciosa e muito parecida com mandioca frita.
 Jaqueira
 Maqueque
 Mangueira
Tamarindo

Pude ainda experimentar a cajamanga, maracujás de vários tipos, sap-sap (uma espécie de anona, maior e mais fibrosa), goiaba e ananás.


Não tive oportunidade de visitar muitos restaurantes já que o orçamento e os passeios eram limitados pelo trabalho. Ainda assim fui a alguns, dos quais passo a falar, mostrando aquilo que mais se come por aqueles lados: peixe!
Posta de Barracuda

Restaurante Tia Nanda – Cidade de São Tomé

O espaço é agradável e comeu-se bom peixe e bons búzios. Mas não posso deixar de referir que foi o único restaurante onde me tentaram enganar com uma garrafa de água adulterada…

Depois de uma visita de trabalho nas Neves levaram-nos a um restaurante à beira-mar com esta vista. O Sol e mar é no norte da ilha, onde dizem que o marisco é melhor… ou pelo menos existe essa tradição!
Peixe vermelho com fruta-pão e banana frita e batata doce cozida

Santola
Deste restaurante não vale a pena falar porque não me lembro do nome… mas foi onde comi peixe-azeite e não podia deixar de o referir… 
O Restaurante da Dona Teté é na verdade o pátio traseiro de uma casa que não tem qualquer indicação na porta mas que esteve sempre cheio nos dois dias que lá fui. O ambiente é agradável, com a “cozinha” mesmo ali ao nosso lado. Não há ementa mas é seguro que o peixe que nos será servido é fresco e delicioso! Foi do melhor peixe grelhado que comi, acompanhado de vários legumes cozidos, fruta-pão assada, banana e mandioca cozida… Os búzios, a salada de choco e as sobremesas também nos deliciaram. É preciso fazer reserva já que a comida é comprada no dia nas quantidades que serão necessárias… (vi gente a ser mandada embora apesar de haver uma mesa disponível!)

Barriga de peixe-andala
Salada de choco grelhado

Mousse de café
Mousse de bolacha

Morada: Av. 12 de Julho nº 93, Cidade de São Tomé

A Pastelaria Central é uma pastelaria portuguesa que serve pratos do dia, entre outros petiscos como francesinhas, empadas, pastéis de nata… limpo e com ventilação, onde se come bem e em segurança por um preço acessível… é bom para quem quiser matar saudades de Portugal…

Morada: Rua de Angola, Cidade de São Tomé
Este restaurante, bem perto do Mercado, foi o único que espantosamente, não tinha peixe!! É um espaço simpático, pequeno, limpo e sossegado e comeu-se bem! Experimentamos frango recheado e costeletas!


Cordon Bleu de frango
Búzios de mar

Os búzios em São Tomé nada têm a ver com os nossos. São grandes, tenros, muito saborosos e podem ser cozinhados em vários molhos. Comi-os em cinco restaurantes diferentes e vi vários molhos, desde os mais picantes, aos mais suaves de manteiga e limão. Recomendo!

Também existem búzios do mato… não os provei mas disseram-me que não são tão bons porque é perceptível o sabor a terra…

Restaurante “O Pátio” – Cidade de São Tomé, perto do Mercado
O Papa Figo era o nosso restaurante habitual… muito perto do Hotel Miramar, com preços acessíveis, pratos bem servidos e com boa qualidade… é bem frequentado, tanto por turistas como por locais, principalmente ao final de semana. Pode ficar um pouco barulhento aos sábados e nos torneios de cartas, mas faz parte da experiência!… não tem mesas no interior, o que pode atrair muitas moscas ao almoço e impedir a refeição no tempo de chuva… mas tem também muitos pontos positivos! A comida é segura, o peixe é fresco e bom… a banana frita é a melhor que comi e tem outras opções como pizzas, hambúrgueres, febras e omoletes…

Corvina com molho picante, servido com banana frita e arroz
Barriga de peixe-andala, mais uma vez com banana frita e arroz

Aqui comi também bonito… onde com certeza que um peixe chega para duas pessoas…
Búzios e matabala frita


A matabala é um tubérculo com características entre a batata, o inhame e a mandioca. Pode ser cozida ou frita mas é muito melhor quando frita! Serve-se como petisco ou como acompanhamento. 

Morada: Av. Kwame N’Kruma, Cidade de São Tomé
O Restaurante Mionga é em São João dos Angolares e tem uma simpática varanda com uma vista para o mar muito bonita…

Aqui também não há ementa. Começaram por nos servir algumas entradas e em seguida o peixe grelhado. Tem o preço fixo de 10€ por pessoa sem bebidas.
Salada de polvo com bolinho de arroz. Sem dúvida uma das melhores coisas que comi em São Tomé!
Peixe com pickle de pepino

Peixe-galinha com banana frita

Não podíamos deixar de ir também à Roça de São João, em São João dos Angolares. É uma pousada e restaurante do conhecido Chef João Carlos Silva. 

O restaurante situa-se num edifício bem preservado com uma vista bonita e ambiente muito rústico e agradável. 


Tivemos a sorte de ter o chef presente, a cozinhar ali mesmo à nossa beira. É necessária reserva, os pratos são servidos todos ao mesmo tempo e não há ementa. Tem o preço fixo de 15€ por pessoa. São servidos vários pratos de degustação e no final um “prato surpresa” que no nosso caso foi calulu. Ao redor da cozinha estão expostos alguns dos legumes usados na confeção dos pratos:
 Aqui temos pimento verde, cenouras, açafrão das índias e quiabos
Duas espécies de banana e cocos
Pepino, óssame, cebolas e beringelas
Batata doce e chuchu
Mamão e pêra abacate 
Maracujá, cajamanga e carambola
Não me lembro exactamente do nome de tudo aquilo que nos foi servido mas vão aqui algumas fotografias… garantido é que as entradas foram todas uma fusão de sabores intensa e maravilhosa!
Para abrir o apetite e despertar as papilas gustativas uma combinação perfeita: pimenta rosa selvagem, chocolate negro, raspas de gengibre fresco e vinho tinto!
Banana recheada com queijo e chouriço embrulhada em erva príncipe com pasta de amendoim e um “ponto de luz” bem picante
Caparauzinho frito com batata doce e molho de azeitona e baunilha
 Banana bêbada com raspas de chocolate
Coco seco com canela
Doce de papaia verde e maracujá com queijo
Goiaba com cajamanga

O prato principal foi calulu com arroz branco, farinha de mandioca e angu. O calulu é um dos pratos mais famosos do país! A sua base é feita com diversos vegetais e ervas. Pode depois ser completado com carne, peixe fresco ou peixe seco! Desiludiu-me um pouco talvez pelo sabor demasiado intenso das ervas! Mas podem ser gostos…
 Café nacional
Site oficial: http://rocasjoao.com/
Um dos locais a não perder é a Gelidoxi. Uma gelataria/pastelaria com muito bom ambiente e gelados deliciosos! Além de terem sabores que não existem aqui, como no caso deste gelado de tamarindo, existem os sabores habituais como o chocolate, com uma qualidade incrível!  
Morada: Rua do Município (em frente ao Mercado Municipal), Cidade de São Tomé 

As 5as feiras são marcadas pelas noites na C.A.C.A.U. Uma galeria de arte/restaurante/sala de espectáculos. Também é gerido pelo chef João Carlos Silva e consiste num buffet de entradas, seguido de 2 ou 3 pratos principais e uma mesa de sobremesas. Tem preço fixo de 16€ sem bebidas. As noites começam com uma apresentação de danças tradicionais, seguida de musica ao vivo e dança! Gostamos das entradas mas ficamos um pouco desiludidas com a refeição principal… de qualquer forma, vale a pena visitar a galeria, aproveitar o ambiente e dar um pezinho de dança…
Prato de degustação de entradas


Em Príncipe comemos essencialmente em casa do Padre que nos acolheu, assim como nas casas das pessoas com quem lidávamos e para onde ele nos encaminhava… apesar disso, fomos duas vezes ao restaurante Dores, Serviços e Eventos. É um espaço muito simples, com quatro ou cinco mesas de plástico e paredes de cimento despidas. Tivemos o prazer de conhecer a Preta, a cozinheira, que é uma mulher jovem e muito alegre! É preciso avisar que lá iremos e não há ementa. A comida é muito caseira e saborosa.
Carapau grelhado com legumes cozidos

Aqui comi banana, batata, inhame, matabala branca e vermelha cozidas para acompanhar o peixe. Sinceramente nada me agradou… a banana e a matabala sabem muito melhor quando fritas. No entanto parece ser unânime que a sopa de matabala é boa! A segunda refeição que lá fizemos foi um belo ensopado de frango que infelizmente não teve direito a fotografia.

Também em Príncipe comi duas vezes cachupa… devido às fortes influências cabo-verdianas no país… 
… e também fungi maguita! Confesso que não foi fácil entender este nome, já de si estranho e desconhecido, dito por um colombiano em “português são-tomense”… só quando cheguei a Portugal consegui encontrar o nome… continuo é sem saber exactamente o que comi… (se alguém me puder esclarecer agradeço…)… sei que era um prato semelhante a farinha de pau com frango muito picante e que era bom!

Compreendo que a fotografia não seja a mais apelativa mas foi a única possível…


A esta casa chegamos sem aviso, depois de conhecermos um grupo de voluntários portugueses que se iam despedir desta família… fomos recebidas como um deles… em poucos minutos tinhamos bolachas e caranguejo na mesa… quando demos por isso, a dona da casa estava na cozinha a fritar peixe… eram 3 da tarde… é este o espírito são-tomense… que felizmente ainda não foi corrompido!…
De volta a São Tomé… existem vários mini-mercados e um supermercado mas grande parte das compras são feitas nos dois mercados do centro da cidade… cada vendedor vende um pouco de tudo com bastante afinco! É um espectáculo de cores bastante atractivo, mas as condições de higiene infelizmente não são as melhores…
Existem várias marcas de cerveja, sendo que entre as mais vendidas estão a Super Bock e a Sagres. Existe ainda a angolana Cuca

e a nacional Rosema, que é vendida em garrafas sem rótulo, mas que vale a pena experimentar!

E já agora a título de curiosidade… não faltam mini mercados como o “Mini Plêço”,
O “Pingo Doxi”,

e o “Mini Continente”…

Para terminar… ficam algumas fotografias bem bonitas dos barcos de pescadores… algumas foram tiradas pelas minhas (mais talentosas) colegas 🙂
Para quem já conhece, se apaixonou e quer relembrar… e para quem não conhece e tem curiosidade… aconselho a ver este episódio do “Portugueses pelo Mundo – São Tomé e Príncipe“… 

Quem quiser saltar para as partes gastronómicas, no minuto 18′ falam do Restaurante Mionga… no minuto 32′ falam da Roça Monte Café e no minuto 34′ falam da C.A.C.A.U.

Felizmente só vi este video quando voltei… felizmente porque assim pude viver todas as experiências com olhos e coração de criança… completamente sem expectativas, onde tudo foi novo e por isso mais intenso, marcante e mais genuíno…
Este blog tem tido como objectivo único a partilha das minhas experiências culinárias… tanto na minha cozinha como pelos países que tive a felicidade de visitar… e o meu forte nunca foi a comunicação verbal, portanto nunca me alongo muito… mas desta vez não posso deixar de falar um pouco da experiência que tive ao trabalhar durante 1 mês neste país tão distante daquilo que é a nossa realidade…

A Inês que aterrou lá com certeza que não é a mesma que voltou agora… uma experiência assim muda-nos… põe tudo em perspectiva… a distância e sentimento de impotência que tanto nos conforta quando vemos as notícias na t.v. fica curta e é impossível de ignorar… tudo aquilo que achamos que sabemos sobre nós e sobre os outros muda… a única certeza que tenho hoje é de que tenho de voltar…

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